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O Paraíso é
a imagem primeira.
Uma imagem da fartura e da felicidade; um sagrado jardim onde
Deus semeou a fecundidade numa divina evocação
da vida; um abençoado recanto sem doenças, sem
inverno e sem envelhecimento, transmitindo uma mensagem simbólica
e alegórica de paz e harmonia.
A nostalgia deste estado de graça, arrancado em conseqüência
de uma grave desobediência às leis do Criador,
faz despertar no homem, desde tempos imemoriais, o desejo de
encontrar o Paraíso perdido.
Na Idade Média, alimentada por uma cruel realidade de
fomes, epidemias e guerras devastadoras, essa nostalgia fez
do Paraíso a própria antítese daquela realidade
decadente e sombria; um "novo" começo onde
a pobreza e a fome acabariam diante de uma terra "sem males".
Enquanto profetas e visionários desejavam "ver"
o paraíso, cavaleiros e aventureiros se juntavam em fantásticas
caravanas e partiam por terra em busca da "Fonte da Juventude
Eterna e da Árvore da Vida".
Porém, novos ventos sopravam em direção
ao "Velho Continente". O pavor que o "inferno"
e a crença na proximidade do "Fim dos tempos"
provocavam ia ficando para trás diante de uma Europa
entusiasmada com os renovados horizontes renascentistas.
Os oceanos já não causavam tanto temor e, navegando
rumo ao Oriente, poder-se-ia chegar às Índias,
com seus mistérios e magia. Ainda, quem sabe, desembarcar
nas fabulosas terras de Ofir, guardiãs das Minas do Rei
Salomão, ou até mesmo encontrar o suntuoso Reino
Africano de Preste João e, assim, localizar os "Portais
do Paraíso".
Foi navegando em direção às Índias
que, em 1500, treze naus portuguesas "esbarraram"
no Brasil.
Nas areias da praia, o nativo dançava em alegre ritual.
Guiados pelos Xamãs, os donos da terra migraram do interior
para o litoral em busca de "Yvy Mara Ey", a "Terra
dos Sem Males", o paraíso Tupi-guarani, e que, na
visão dos pajés, estaria do outro lado da imensidão
das águas.
Em sua pureza e ingenuidade, o índio viu naquela gente
que saía do mar verdadeiros Deuses que, finalmente, o
conduziriam aos "Jardins Purificados".
Já os navegadores, deslumbrados com a nudez e a aparente
inocência dos nativos, viram neles a própria imagem
do homem antes de ser expulso do Paraíso, materializando
na América a visão renascentista do Éden
terrestre.
Afinal, as sugestões edênicas estavam por toda
parte e faziam uma mágica ligação entre
o "Velho" e o "Novo" Mundo. Dessa maneira,
o maracujá se transforma em pomo edênico, assim
como as bananas cortadas exibiam aquele sinal à maneira
de crucifixo por elas manifesto.
A Fênix é o Guainumbi ou Guaraciaba; outros acreditavam
mesmo tê-la visto na figura do beija-flor, enquanto os
papagaios, para muitos, eram, na verdade, anjos castigados que
ganharam a forma de pássaros.
Mas os boatos sobre cidades bordadas de ouro e pedras preciosas,
as notícias de montanhas resplandecentes e lagoas douradas,
comuns entre os indígenas, rapidamente levaram o invasor
europeu a embrenhar-se pelos sertões desconhecidos, maculando
o "Paraíso Brasil".
E, assim, os índios dançaram e o Brasil sambou!
O que de bom encontrava-se aqui foi parar na Europa. Animais,
plantas e até mesmo "exemplares" do nosso "bom
selvagem" foram "exportados", causando enorme
rebuliço do outro lado do Atlântico.
Enquanto, do lado de cá, o povo sofria com a "Derrama"
- um verdadeiro "Quinto" dos infernos - no lado de
lá, as farras das Cortes de Portugal e Inglaterra eram
bancadas com o ouro do Brasil. O jeito era rezar uma novena
para o "santo do pau oco"!
O tempo passou, mas continuamos cortando o pau, matando os bichos,
vendendo as plantas, envenenando as águas, queimando
os índios e mandando pra longe nossas riquezas!
Calculistas e mercenários, criamos o nosso próprio
Paraíso terrestre e batizamos com o nome de "Paraíso
Fiscal". Ali, abençoados pela generosidade financeira,
protegemos nossas "verdinhas" em "espécie".
Mas não se enganem pensando que se trata da flora tropical
bem preservada. Neste caso, nos referimos às cédulas
de dólar depositadas em contas pra lá de suspeitas.
Já os exemplares da nossa fauna contrabandeada desde
sempre, agora, são enviados do "Paraíso Brasil"
diretamente ao "Paraíso Fiscal", sem taxação,
estampadas nas notas do nosso Real.
No fundo, queremos mesmo é preservar as "araras"
que valem "dez reais". Defendemos, bravamente, os
"micos-leões-dourados" que estão cotados
a "vinte". Brigamos como loucos pelas "onças
pintadas", ou seria por "cinquenta reais"? Tira
a mão que ninguém vai "pescar" minha
"garoupa" de cem reais, não! Ora, quem sabe
se numa sombrinha agradável lá nas Ilhas Caymãs
elas não se reproduzam rapidamente?
Diante desse "Capitalismo selvagem", para se alcançar
o Paraíso basta colocar a grana na cestinha diante do
altar. Um carrão novinho também dá direito
a chegar lá. E o que falar da ida ao shopping com dinheiro
pra gastar? E se faltar din din, há cartões de
crédito, cheque especial e crediário, todas as
facilidades do mundo no "Paraíso do Consumo"!
Mas nós somos a Mocidade e, independentes, podemos ir
a qualquer lugar.
Vamos fazer a nossa parte! Querer é poder, e o amor constrói.
É possível descobrir o nosso próprio paraíso,
afinal, ele está perto de nós, dentro de nós
mesmos, em nosso interior.
Vamos jogar fora as amarguras do dia a dia e nos vestir com
a fantasia que sempre sonhamos: milionário ou plebeu,
rainha ou camelô, desempregado ou doutor, um nobre ou
apenas um sonhador.
Afinal, hoje é carnaval, e se você sabe o que procura,
tudo é possível no "Paraíso da Loucura"!
Está esperando o que pra ser feliz? |